Motorista que agrediu passageiro gay alega legítima defesa; ele não tinha autorização para dirigir pela 99

Motorista conta que havia cancelado corridas na mesma noite e por isso decidiu aceitar a corrida de passageiro que havia lhe assediado por mensagem; 99 decide também bloquear passageiro

A apuração do 10° Distrito Integrado de Polícia (DIP) do Amazonas constatou que o motorista que agrediu o passageiro Cleyton Oliveira não tinha autorização para dirigir pela 99. Ele usou a conta de um sobrinho para dirigir, conduta que não é admitida, sob nenhuma hipótese, pela empresa de transporte particular.

O delegado titular, João Neto, explicou como chegou ao autor da agressão. “A vítima havia dado um nome. Mas a pessoa que constava era somente o titular da conta no aplicativo. Foi procurada essa pessoa que indicou que havia emprestado a conta ao tio.

O delegado disse que a vítima da agressão já manifestou o interesse em prestar depoimento. “Nós conseguimos falar com uma tia dele que disse que levaria ele até a delegacia. Ele disse que também tem áudios da viagem para apresentar à polícia”.

O delegado João Neto (foto) indiciou o autor da agressão por lesão corporal

O motorista que agrediu o passageiro gay prestou depoimento nesta sexta-feira na delegacia de polícia em Manaus. Aparentando tranquilidade, Paulo Lima  admitiu a agressão e alegou que apenas reagiu a um assédio do passageiro. Ele foi indiciado por lesão corporal.

No entanto,  o assédio já havia começado antes da corrida começar. Cleyton havia mandado uma mensagem de texto oferecendo “uma mamada gostosa para relaxar”. O motorista  disse que, mesmo diante do assédio,  decidiu aceitar a viagem porque já havia cancelado outras corridas.

“Antes de pegar a corrida dele eu já tinha rejeitado outras corridas. No aplicativo, quando a gente rejeita muitas corridas, fica bloqueado por algumas horas. Como eu não queria ficar bloqueado, eu aceitei a corrida  e ignorei a mensagem dele oferecendo uma mamada pra relaxar. Ele entrou no carro bêbado, sem máscara, com um copo de bebida na mão e sentou no banco da frente, sendo que é obrigatório o passageiro sentar no banco de trás por causa da pandemia”.

Ainda assim, o motorista decidiu dar prosseguimento à viagem. Paulo Lima contou que, logo em seguida, começou o assédio por parte do passageiro. Ele afirma que ainda tentou argumentar com Cleyton Oliveira para dar fim ao assédio, mas não foi ouvido.

“Toda vez que eu trocava a marcha do carro ele se esfregava em mim. Eu pedi pra ele: deixa eu terminar minha corrida sossegado, te deixar em casa e continuar meu trabalho. Ele não respondeu e deu um sorriso sarcástico. Quando eu parei o carro no sinal e botei as duas mãos no volante, ele segurou nas minhas partes íntimas. Pegou no meu pau, falando português claro. Minha reação foi pra me afastar dele.”

O motorista disse que deu um soco no rapaz. No entanto, a foto publicada por Cleyton na delegacia mostra lesões por todo o rosto do designer gráfico. “Dei só um soco. Dei um soco com as costas da mão. Não sabia que tinha feito aquele estrago todo”, relatou o motorista em entrevista na delegacia.

“Toda vez que eu trocava a marcha do carro ele se esfregava em mim“, disse o motorista em entrevista.

Perguntado se sentia arrependimento, o motorista disse que se sentiu no direito de reagir com agressão .

“Não estou arrependido porque eu fui abusado. Ele tentou se aproveitar da situação. Qualquer pessoa no meu lugar teria feito até pior. É um absurdo você ser assediado no seu local de trabalho”.

O motorista também negou a versão de Cleyton sobre o fim da corrida. No texto postado nas redes sociais, o passageiro havia dito que pulou do carro para escapar das agressões.

“Ele não pulou do carro em movimento. Quando eu brequei, ele abriu a porta do carro e saiu correndo”.

Ele disse que ficou chateado com a repercussão do caso. “Apareceu uma dor de cabeça insuportável. Eu fui tachado de homofóbico. Eu não sou homofóbico. Eu tenho um amigo que mora comigo e com a minha esposa que é homossexual.  Não tenho nada com a vida de ninguém. Só que é aquela coisa: me respeita que eu te respeito”.

O motorista está confiante em desmontar o argumento do passageiro agredido. “Eu quero que ele prove. Eu tenho áudio de tudo que aconteceu. Ele dizendo que ia me pagar para fazer programa com ele”.

Ouça o áudio disponibilizado pelo motorista para a polícia

Sobre o "VÍTIMA" do 99.O BUNDUDO..

Posted by Heyrison Castro on Thursday, August 13, 2020

99 decide bloquear passageiro do aplicativo e pede “respeito mútuo”

A empresa de transporte de passageiros 99, que já havia banido o titular da conta depois  da repercussão do caso, decidiu também “bloquear preventivamente” o passageiro da plataforma. Em nota, a empresa afirma que “o respeito mútuo é a base de tudo e é obrigatório para a utilização do app”. A 99 ofereceu suporte psicológico e auxílio para a cobertura dos gastos hospitalares do passageiro.

Leia na íntegra a nota da 99

“Nós da 99 lamentamos profundamente esse caso de violência e discriminação. Assim que tomamos conhecimento dessa grave denúncia, banimos o condutor da plataforma. Também mobilizamos uma equipe que está buscando contato com o Clayton para oferecer todo o apoio psicológico e o auxílio em relação ao seguro para cobrir despesas hospitalares.

Para nós, o respeito mútuo é a base de tudo e é obrigatório para utilização do app. Repudiamos veemente comportamentos ofensivos, atitudes agressivas ou qualquer forma de desrespeito ou discriminação na plataforma. Por isso, a conduta do passageiro está sendo avaliada e seu perfil também foi bloqueado preventivamente enquanto a polícia realiza as investigações.

Gostaríamos ainda de informar que estamos disponíveis para colaborar com as apurações das autoridades para que o caso seja solucionado o mais breve possível. Na 99, temos uma política de tolerância zero em relação ao preconceito LGBTI+ e qualquer outra forma de violência, discriminação ou desrespeito.

Por isso, investimos continuamente em educação. Realizamos periodicamente rodas de conversas sobre gentileza e respeito nos 35 centros presenciais de atendimento (Casas99) distribuídas pelo país. Além disso, disponibilizamos cursos online abertos a 100% dos motoristas com foco em diversidade e cidadania. O conteúdo foi feito por uma plataforma especializada em educação digital com a curadoria de especialistas no assunto. Entre os módulos estão informações sobre o combate à LGBTI+fobia.

A 99 reitera ainda que está apurando a informação de empréstimo da conta. A plataforma reforça que, de acordo com seus Termos de Uso, o perfil do motorista é exclusivo e intransferível. Ou seja, não é permitido o compartilhamento da conta com um terceiro.

Pedimos a sua força pra apoiar nosso trabalho e curtir a nossa página Nosso Orgulho no insta. A sua curtida vai ajudar a gente a enfrentar a pandemia e conseguir parcerias. Só clicar aqui

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