Uma vitória contra a transfobia: conheça a família formada por Felipe, Alexander e o pequeno Charlie

No dia 11 de dezembro de 2019, a vida do operador de telemarketing Felipe Azevedo, de 23 anos, e de Alexander Duarte, 23, ganhou um novo sentido. Depois de oito meses e duas semanas de gestação, Felipe deu à luz a Charlie, primeiro filho do casal.

O casal tomou a decisão de continuar com a gestação mesmo com todos os dedos da sociedade transfóbica apontados para eles. Enquanto a barriga crescia, Felipe era vítima de olhares hostis. A violência, simbólica nas ruas, chegou às vias de fato no ambiente de trabalho. Um colega o agrediu com um tapa nas costas. Foram meses de sentimentos contraditórios. A paternidade alegrava Felipe e Alexander, mas a discriminação levava o pavor dia a dia .

As sensações boas foram acompanhar cada crescimento dele, cada consulta era uma sensação diferente, cada ultrassom era uma emoção maior. Ver, sentir o Charlie. Cada chute. Foi tudo incrível e diferente. As sensações ruins aconteciam da porta para fora. Quando eu tinha que sair para o trabalho. Pegar o ônibus. Ninguém cedia o lugar ou por não entender ou por nem perceber. Eu, por medo, não pedia um lugar para sentar. Em toda a gestação foram apenas dois episódios de pessoas que deram o lugar para mim”, lembrou Felipe.

A felicidade de uma família em uma foto: Felipe, Charlie e Alexander. Foto: Arquivo Pessoal

“Foi um misto de amor, por descobrir que eu seria pai, e apreensão e medo, principalmente pela integridade física do Felipe. Eu morria de medo todos os dias pela manhã quando eu o via sair para trabalhar. Não ter a certeza se ele voltaria bem ou mesmo se voltaria era assustador. Toda a questão do preconceito deixava tudo mais tenso”, recordou Alexander.

Felipe iniciou o processo de retificação do nome com a gravidez em andamento. Esta característica garantiu a ele o acesso ao pré-natal sem dificuldades. No entanto, homens trans que engravidam com o nome retificado enfrentam a realidade da negação ao pré-natal. Um rapaz, que preferiu não se identificar, recordou com tristeza o choque provocado pela interrupção abrupta da gravidez no quarto mês. “Foi o maior trauma da minha vida. Levei a gravidez sozinho. Queria muito ter o bebê, vê-lo em meus braços. Só fui ao hospital quando me vi sangrando muito, quando estava me contorcendo de dores física e emocional. Chorei por semanas todas as noites. Não sei se um dia vou me recuperar de tudo o que aconteceu”.

Os temores do que poderia enfrentar ao longo de nove meses levou Felipe a pensar no aborto como um fato inescapável.

“Eu tinha muito receio de engravidar. Não imaginava ter filho. Não por agora e muito menos de forma natural. Só fui descobrir quando estava de três meses. No começo, eu não aceitava. Pensei em tirar. Com o tempo, fui me acostumando e tomando amor. Eu passaria tudo o que passei de novo para ter essa coisa linda em meus braços”.

Alexander estava ao lado do namorado à espera da decisão sobre a continuidade ou não da gravidez. A vontade de ser pai não o cego para a propriedade de Felipe sobre si mesmo e a responsabilidade sobre feto que gestava.

“No começo, eu não queria tomar a decisão sobre o bebê. Achava que meu único papel era de apoiar o que o Felipe quisesse por se tratar do corpo dele. Mas depois, eu percebi que tudo que ele queria era a minha opinião sincera sobre o assunto. Nós decidimos prosseguir com a gestação quando percebemos que o sentimento pelo bebê só aumentava”.

Alexander esteve ao lado do namorado durante a difícil decisão sobre a continuidade da gestação. Foto: Arquivo Pessoal.

Felipe enfrentou os olhares tortos não apenas nas ruas. Não ficou livre da transfobia nem mesmo na unidade de saúde onde fez o pré-natal. Felizmente, encontrou uma obstetra que o respeitou como homem trans.

“Alguns médicos foram bem preconceituosos no começo. Não respeitaram minha identidade de gênero. Em compensação, a maior parte dos profissionais foram muito gentis. A doutora Lina, que me acompanhou, é uma ótima obstetra. Também tive o apoio de doulas e enfermeiras que foram excelentes”.

No ambiente de trabalho, ele foi vítima de violência física transfóbica. Um colega de trabalho, novo na empresa, não aceitou receber ordens de uma pessoa trans. A gestação já aparente não diminuiu o ímpeto do rapaz em desferir um tapa pelas costas, aproveitando um momento de distração do operador de telemarketing.

“Eu já era veterano na empresa e back office da minha supervisora. Eu meio que ajudava os novatos a se adaptar. Esse garoto que me agrediu era novato. Teve uma reunião em que ele não parava de conversar no meio de um comunicado importante. Então, eu chamei atenção dele. Ele não gostou e começou a discutir comigo me chamando no feminino para me atingir. A supervisora apartou e eu achei que estava tudo resolvido. No dia seguinte, ele ficou passando próximo à minha mesa. Provocava, encarava. Ele voltou no corredor e me cutucou. Eu virei pra ver o que ele queria, achando que ele pediria desculpas. Ele me ameaçou dizendo que iria me pegar na saída do serviço, que era pra parar de falar dele. Eu não quis dar corda, virei e continuei atendendo as ligações. Ele me deu um tapa nas costas que me empurrou para dentro ‘da P.A’ (posto de atendimento do operador de telemarketing). Ele ficou durante uns três dias seguidos esperando eu sair na porta da empresa. Eu tinha que ir embora acompanhado de alguns amigos me levavam até o ponto de ônibus. Uma vez, a própria supervisora me acompanhou até a porta. Eu cheguei a fazer boletim de ocorrência. Fui ao Ministério do Trabalho, mas acabou dando em nada. A empresa manteve ele lá”..

Felipe trabalhou até uma semana antes da gestação. Dois dias antes do nascimento do Charlie, ele deu entrada na maternidade para o parto induzido. “Minha bolsa estava com pouco líquido. Não aguentaria mais duas semanas até completar os nove meses”. Mesmo no momento mais delicado da vida, na véspera do parto, a transfobia se fez presente. “Na troca de plantão, uma médica queria estourar minha bolsa antes da hora. Veio me tratando no feminino. Eu não deixei por baixo. Coloquei ela no lugar e nunca mais apareceu. Fiquei no processo de indução por dois dias até que ele nasceu no dia 11 de dezembro, às 22:11”. Charlie foi registrado com os dois pais na certidão de nascimento.

Alexander resumiu em uma frase o sentimento ao pegar o filho no colo em uma gravidez que, se não foi de risco clínico, sofreu com as ameaças de uma sociedade que rejeita a transexualidade. “Ter o Charlie nos braços é, na verdade, um alívio”.

Decifrar as vontades do bebê têm sido um dos grandes desafios do casal em seus primeiros dias de paternidade. “Como somos pais de primeira viagem, tudo é uma surpresa e um aprendizado. O que me surpreende é ver tanta inocência e esperança num ser tão pequenino”, disse Alexander. “Tem sido cansativo e encantador ao mesmo tempo. Quando ele dá os ataques de choro e não há o que fazer por não saber o que ele está sentido se torna desesperador. Por outro lado, a cada dia eu aprendo uma coisa nova sobre o Charlie: como cuidar, o que fazer, cada mania, cada modificação dele, tudo isso é fascinante”, completou Felipe.

Com o apoio dos parentes, eles vivem este cotidiano de descobertas ao lado da pequena grande companhia. Os problemas enfrentados durante a gestação ficaram para trás, mas eles têm a consciência de que precisarão de forças para encarar a transfobia, um monstro forte que atormenta a vida adulta tanto ou mais que os pesadelos para um indefeso recém-nascido. “A amamentação é a pior parte. Em casa é ótimo. Eu sou de boa para dar de mamar. Mas quando temos que sair de casa é constrangedor. Por isso, a gente preferiu escolher a mamadeira quando temos que ir em ambientes que não são familiares”.

Contudo, eles afirmam, todo o amor que sentem pelo filho resulta em uma força intransponível que os une contra todo o mal que insiste em se aproximar. Felipe e Alexander discorrem sobre o que desejam para o futuro do filho.

“Foi a melhor coisa ter esse bebê. É a sensação mais gostosa do mundo. Nunca imaginei que fosse tão gostoso tudo isso. Espero que o Charlie saiba respeitar e entender qualquer tipo de pessoa e diferença. Que saiba que o amor é a base para enfrentar o mundo. Quero ensiná-lo da melhor forma a ser uma boa pessoa”, disse Felipe.

“Quero passar para ele que o respeito às diferenças é fundamental para conviver em sociedade. E que só o amor vence o ódio”, completou Alexander.

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